sábado, 11 de fevereiro de 2012

Diferenças, estereótipos e aprendizado


Armin e Meriem no nosso terraço

Enquanto não chega o carnaval propriamente dito (a Mi e a Dani virão conhecê-lo :D) nem a próxima viagem, vou compartilhando um pouquinho das minhas impressões e do meu cotidiano.

Certos hábitos estrangeiros me causaram estranhamento logo no começo. Aqui é normal assoar o nariz na frente de todo mundo, na sala de aula, fazendo barulho. Também não tem nada demais passar desodorante no museu, assim, no meio da galera. Fiquei pensando, mas que contradição, sou parte de um povo com reputação de despudorado e tenho uns pudores bestas, de umas coisas tão humanas e naturais. Que coisa.

Moro bem pertinho da catedral, cartão postal de Cádiz, e divido apartamento com dois estrangeiros, Meriem e Armin. Meriem é francesa de Nice e uma coquete assumida, vaidosa, com incontáveis frascos de perfume e um notebook cor de rosa. Tenho aprendido muito sobre maquiagem e cosméticos com ela, que já trabalhou numa duty free. Nossa principal diferença é a questão do papel higiênico, que ela não consegue não jogar no vaso sanitário. Eu consegui parar de me irritar com isso, mas em caso de entupimento, quem paga o encanador é ela.

Austríaco, professor de alemão e testemunha de Jeová, Armin é meu melhor amigo. Não poderíamos ser mais diferentes um do outro, mas por alguma razão nos damos muito bem. Até hoje, só tivemos uma única rusga. Estávamos conversando sobre sei lá o quê e eu brinquei que “todos os alemães são loiros”. Ele, como historiador, geógrafo e germânico, não gostou da generalização e respondeu: “E todas as latinas têm cinco filhos, cada um de um pai diferente”.

Começamos uma longa discussão, ele alertando para eu ter cuidado com o que falo e eu explicando que só uma parcela mínima do que falo deveria ser levado a sério. O mais engraçado foi ele dizer, com a cara vermelha e a voz trêmula, que não, não estava nervoso. A situação foi tensa mas rendeu a anedota.

Armin nunca tinha dividido apartamento, muito menos morado só com meninas. Tive que explicá-lo que não se pode colocar objetos metálicos no microondas e que o catchup não pode ficar fora da geladeira . O coitado teve que se habituar a pendurar calcinhas no varal quando é sua vez de estender a roupa, e também lidar com nossos fios de cabelo serpenteando pela casa inteira. Ele achou um absurdo a quantidade de dinheiro que eu e Meriem gastamos na liquidação de inverno, mas pagou o dobro pra assistir um jogo do Real Madri sem peso na consciência.

Noves fora, temos uma convivência muito harmoniosa, rimos, cantamos e ouvimos música ruim juntos. Os dois são bem compreensivos com minha bagunça, que tem ímpetos imperialistas e às vezes conquista os outros cômodos da casa, por mais que eu tente mantê-la nas fronteiras do meu quarto.

No intercâmbio, o que não falta é aprendizado. Aos poucos, tô conseguindo gostar mais dos franceses, esses poços de simpatia, tentando me focar menos nas baforadas de cigarro e mais na oportunidade de aprender francês. Já não me importo com a imagem que se tem do Brasil, carnaval, samba, favela e blá blá blá, porque sei que tenho a mesma visão preconceituosa sobre outros países, por simples e natural ignorância. Às vezes é difícil se despir dos estereótipos quando a convivência só faz reforçá-los, mas por sorte tenho um amigo para me lembrar que generalizações são burras, e devagarzinho vou me livrando do cabresto etnocêntrico.

Beijos, povo, mais amor e menos preconceito!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Chicos

Primeiro texto do ano para o Descomplicadas, da Revista Naipe.


O primeiro foi o Chico Mineiro, o do Tonico e Tinoco, cuja morte minha avó cantava no coral da terceira idade. “A festa estava tão boa / Mas antes não tivesse ido / O Chico foi baleado / Por um homem desconhecido”. A netinha, comovida, não queria que a música acabasse nunca, pro Chico Mineiro não morrer, mas o coro de vozes velhas sempre o matava no final.  Depois, veio o Chico Anysio, dando razão de rir às minhas tardes vadias com a Escolinha do Professor Raimundo. Sua canção também parece estar chegando ao fim. Vai ver as coisas andam meio chatas lá em cima, e querem convocar seus duzentos e tantos personagens pra dar uma animada no céu.

Mais tarde, fui me inteirando de outros Chicos. O Xavier, que devia ser alguém importante, pois suas frases sabidas enfeitavam os intervalos do SBT; O Buarque, esse maldito, quanto mais velho, mais bonito, não sei se é a poesia ou o par de olhos verdes; E o Sá, que de tão arretado é Chico com X e não com Ch.  Sei não, tô achando que todo Chico tem talento pra botar palavra junto.

Em espanhol, chico é menino, rapaz, moço, carinha. No mercadinho da esquina, aprendi que também pode ser referência de tamanho, quando quis saber o preço do suco e o atendente perguntou: “Cuál, el grande o el chico?”. E daí surge achicanar, que é minguar, encolher, apequenar, não é uma graça esse verbo?

Antigamente, se dizia que todo mês a mulherada esperava o Chico. Estar de chico é estar no vermelho, em obras, menstruada. Esse Chico é macho-alfa e egoísta, quando vem, não quer saber de outro chico rondando por ali. São os dias do “hoje não rola”, mas dá pra relevar se a frescura for menor que a vontade de namorar. A visita do Chico é uma chatice e um alívio, garantia de que na barriga não tem nenhum mini chico.

E então teve este Chico, chefe meu em um ex-estágio. Dono de um pavio curto, uma língua grande e um coração maior ainda, elaborava frases de discurso político em menos de um segundo, e ia do amor ao ódio na mesma velocidade. Chico era o mestre da metáfora. Na minha entrevista de estágio, explicou que a função daquela assessoria de comunicação era “pintar com as cores de Santa Catarina o que está em verde e amarelo”. Soltei um ingênuo “nossa, que bonito” nada adequado pra ocasião, mas desconfio que foi por isso mesmo que ele me contratou.

O temperamento faiscante lhe rendeu o apelido de coronel. Bambeava minhas pernas com broncas homéricas e depois, ferido de remorso, pedia perdão. Sem saber como me portar, me achicanava na cadeira de estagiária, só concordava com a cabeça e ensaiava um olhar de quem estava entendendo tudo. Com o passar do tempo, ele concluiu que eu tinha uma “quietude inquieta” e sabia “o valor do silêncio”. Mas às vezes me falhavam os dotes de atriz. Certa ocasião, Chico me enrubesceu inteira ao sentenciar: “A Nucada tá apaixonada. Quando entrou aqui não tava, mas agora ela tá”.

Chamar-se Chico é quase atestado de personalidade forte. Nem todo Chico é Francisco e nem todo Francisco é Chico, só os merecedores do apelido. Os Chicos são assim, mineiros, cearenses ou castelhanos, chegam como quem não quer nada, com esse nome humilde na frente e muita singularidade atrás, e bum! Marcam a gente.

 E você, quais sãos os Chicos da sua vida?


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Esperar pra quê?


Confetes anunciam a chegada da folia


E foi dada a largada pro Carnaval de Cádiz, um dos mais famosos da Europa! Siiiim, já, o povo gaditano não perde tempo, e realmente faz de tudo para encurtar o período entre o réveillon e a festa da carne. Até eu, brasileira com sangue baiano nas veias, tô achando que aqui tem feriado e festa demais. Quer ver?

Balas distribuídas pra criançada no dia dos Três Reis Magos












A seis de janeiro é celebrado o dia dos Três Reis Magos, feriado, ninguém trabalha, tudo fechado. Aqui na Espanha, país católico até dizer chega, Belchior, Baltazar e Gaspar são mais importantes que o Papai Noel, e também recebem cartinhas, trazem presentes e coisa e tal. No dia cinco, a véspera, as lojas fecham mais cedo e todo mundo vai pras ruas. Às 16 horas começa uma verdadeira carreata pela cidade, com três carros alegóricos, um para cada rei mago, cheios de pessoas fantasiadas jogando toneladas de balas para o público. As crianças vão bem preparadas, munidas de sacolas enormes e guarda-chuvas de cabeça para baixo (!), e voltam para casa com estoque de açúcar pro ano inteiro.

Pestiños Navideños
Em seguida (neste ano foi dia 14, último sábado) acontece a Pestiñada, a festa do pestiño, um doce natalino feito de farinha, vinho e gergelim, que é distribuído com uma dose de licor de anis. O festival marca o início do Concurso Oficial de Agrupações Carnavalescas, uma competição muito importante aqui em Cádiz. O pestiño não é tão gostoso, mas as apresentações de canto em coro são divertidas e tipicamente gaditanas, alegres e expressivas.
  
Ouriço e sua apetitosa aparência
 Logo depois, vêm dois festivais gastronômicos que antecipam o carnaval, a Erizada e a Ostionada, as festas do ouriço-do-mar e da ostra, respectivamente. Este ano, os dois eventos aconteceram no mesmo dia, o último domingo, 15. A chuvarada que caiu não umedeceu o ânimo do povo, que adora uma desculpa pra encher a cara. Eu fui apenas à Erizada, onde foram distribuídos uma tonelada de ouriço, 400 litros de cerveja e 400 litros de vinho. 

Outras iguarias vendidas na cidade
O tal do ouriço não tem uma cara boa e sobre o cheiro não vou nem comentar.  É claro que eu não provei, avessa que sou às melecas marinhas. Quem se aventurou disse que o sabor é de água salobra com um pouquinho de areia. Pelas ruas, pescadores vendiam outros frutos do mar, e a festa se estendeu até  a noite, quando as discotecas abriram e funcionaram a todo vapor em pleno domingo, dia santo, num país muito católico, sim senhor.  
 
Crise? Que crise que nada! Balas, doces, frutos do mar e álcool de graça pra galera, esse é o espírito espanhol, minha gente.

A chuva não impediu o povo de festejar a Erizada nas ruas






 Beijos carnavalescos e até mais!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Turistando com o estômago


Três palavras que você precisa saber para ir ao Marrocos: cuscuz, tagine e harira. Foi a primeira viagem da minha vida em que tudo que comi, absolutamente tudo, estava DELICIOSO. Botei o pezinho (que sempre tive) na África e saboreei como nunca o fim de semana em Tânger. 


















Chegar lá quando se mora no sul da Espanha é fácil, barato e rápido: uma hora de barco. Sem stress de aeroporto, sem incomodação com Ryanair. Eu nem tinha planos de viajar este mês, mas resolvi aproveitar que um amigo ia, já que não queria viajar para lá sozinha por motivos óbvios de amor à vida. Tânger está no norte, próxima do estreito de Gibraltar, e é uma cidade bastante europeia, com forte influência das culturas mediterrâneas. Seu povo é poliglota e está preparadíssimo para receber – e extorquir – os turistas. Isso é algo que se tem de ter em mente antes de ir ao Marrocos: vão te coagir ameaçar a gastar dinheiro o tempo todo. E eu senti na pele, logo na primeira tarde.

Entramos numa loja de decoração/souvenires gigantesca, e comecei a tirar foto de tudo, bem alegre e inocente. Ficamos um quinze minutos por ali, eu clicando sem parar. Quando nos encaminhamos para a saída (sem haver comprado nada), o dono se aproximou e me acusou (em inglês): “Você roubou tudo isso aqui com sua câmera.” Disse que eu tinha que pagar pelas fotos, que eu não havia pedido permissão para fotografar, perguntou quantas eu tinha tirado. Depois de uns dois minutos de pressão dele e pedidos de desculpa meus, deu uma risada si-nis-tra e falou que estava brincando. Saímos correndo dali, e ainda fiquei por um bom tempo com olhinho esbugalhado e cara de choro. Faz parte, fazer o quê.

Foto da loja onde "roubei tudo com a minha câmera"

Recuperada do susto, fui conhecer a Medina, a parte antiga da cidade. Lá ficam o Zoco Grande e o Zoco Pequeno, mercados onde se pode comprar temperos, especiarias, flores, frutos secos, castanhas, nozes. Nas ruazinhas próximas, há joalherias e uma infinidade de lojas de roupas e artigos falsificados. Por ali, não é raro ver mulheres passando com galinhas embaixo do braço, como se fossem baguetes. A uma caminhada rápida da Medina está a praia, com camelos na areia e discotecas badaladas no passeio marítimo. É a parte nova da cidade, com um cenário bem diferente: fast foods e limusines.

No restaurante do hotel Hammadi, na Rue D’Italie, jantei um prato chamado cuscuz sete verduras, acompanhado de um bom pedaço de carneiro. DELICIOSO. Não é seco como o cuscuz do nordeste brasileiro (esse eu não curto muito), é suculento e bem condimentado. O hotel é um antigo palácio marroquino, no restaurante come-se muito bem por oito euros e há artistas animando a noite com “música clássica das montanhas do Marrocos”, segundo o garçom. Aprovadíssimo.

Como Tánger é bem pequena, no segundo dia visitamos Asilah, um povoado a 45 Km de distância. Fomos recomendados a ir à estação de ônibus e pegar um táxi coletivo, 20 dirhams por cabeça (equivalente a dois euros). Entramos em um carro que estava com dois lugares livres, e como completamos os assentos, achamos que já íamos sair. Que nada, o motorista esperou por outras duas pessoas e as enfiou no táxi, espremendo quatro passageiros no banco de trás e dois no dianteiro. Olha só que beleza:

Depois de 40 minutos de conforto e comodidade (agradeci o trajeto inteiro por ser inverno, imagina o inferno que deve ser viajar de coletivo no calorão), chegamos a Asilah, que, também litorânea, é pequena, pacata e encantadora. Ali moram muitos campesinos marroquinos, facilmente identificados por seu chapéu característico. Vivem da agricultura, e aos domingos vão a Tânger vender seus produtos. 

Campesinos marroquinos na feira de domingo

No almoço provamos harira, a típica sopa marroquina, à base de lentilha, azeite de oliva e grão-de-bico. DELICIOSA.  Uma tigela foi o suficiente para fazer pesar o estômago, e fizemos a digestão curtindo o vaivém de túnicas coloridas, as djellabas.


Harira, pão fresquinho e as melhores azeitonas da minha vida

Ah, outra coisa importante sobre o Marrocos, se você é do tipo de turista baladeiro: bebidas alcoólicas são caras e não muito fáceis de encontrar. Uma long neck pequena de cerveja custa três euros. Mas quem precisa de álcool quando se tem o chá de hortelã, a bebida oficial do país? Servido com uma dose generosa de açúcar, em alguns lugares leva também alecrim e limão. Eu tomei uns três copos por dia, DELICIOSO.

Deixei pra falar do meu prato preferido por último, mas vou roubar a descrição do Wikipédia, que está perfeita, sem tirar nem pôr: “Os pratos de tagine são cozidos lentamente, a temperaturas baixas. Desse processo, resulta carne tenra, soltando-se dos ossos, com vegetais aromáticos e molho.” Tem de carne de vaca, frango, peixe e carneiro. Nem preciso dizer que é DELICIOSO, né? Ai, Marrocos, que saudade. 

Minha última refeição, tagine de carne em primeiro plano, chá de hortelã no fundo

Amei a viagem, a melhor até agora, sem dúvidas. Conheço um montão de gente que foi pra lá e não gostou. Se você faz questão de limpeza, segurança, conforto e gente fina, elegante e sincera, também não vai gostar. Mas se você quer ver de perto o que é um país muçulmano e está disposto a sentir a dorzinha dos choques culturais, se joga. De quebra, vai comer MUITO bem pagando preços universitários. Se você for mulher e não estiver de burca, provavelmente ouvirá elogios desrespeitosos em ao menos cinco línguas diferentes. Por isso, é bom não ir de shortinho e estar com pelo menos uma companhia masculina. De resto, é só saborear. 

Pra fechar o post, fotos dos baratos e DELICIOSOS doces franceses. Em toda esquina tem uma confeitaria cheinha deles. Bom apetite!          
                    

sábado, 24 de dezembro de 2011

Para Noel


Descomplicadas de natal.

Faz bastante tempo que não lhe escrevo, mas desta vez não vou pedir nada, não. Nos últimos anos estive pensando muito e quero dizer umas coisas pro senhor.

Descobri que o que eu mais quero não vai aparecer dentro da meia pendurada na chaminé, assim, num passe de magia natalina. Descobri que o senhor não pode me dar o que eu mais quero, porque o que eu mais quero depende quase que só de mim. Descobri que correr atrás da própria felicidade é um pega-pega difícil, e a responsabilidade pesou nas minhas costas feito um saco cheio de presentes. 

Todo ano, quando as férias já não eram novidade e o tédio me cozinhava no sofá da sala, eu começava a fazer uma lista de desejos. Costumava ser complicado, porque eu queria a máquina de sorvete da Eliana e a linha completa de brinquedos do Gugu. Então, tinha que pensar com bastante calma no que eu queria de verdade, no que iria me fazer mais feliz. Depois de algumas sessões da tarde conseguia chegar a um item só, que eu desejava com bastante força. Faço isso até hoje, porque, inclusive no pega-pega, se você não define um objetivo, corre atrás de todo mundo e acaba não pegando ninguém. 

Confesso, por uma coisa eu ficava chateada. O senhor sempre disse que se eu for uma menina má, se eu roubar o namorado da amiga, praticar bullying na faculdade ou entrar no Facebook no horário do estágio, não ganho presente. Então, eu entendi que se eu me comportasse, fizesse tudo certinho, teria recompensa no final. 

Só que não, fui vendo que mesmo se eu fizer tudo certo, me esforçar, virar a noite, levar a sério, ainda assim o presente pode não vir. Por um momento, duvidei se valia a pena ser uma boa menina. Fiquei indignada, frustrada, com vontade de dar birra. O problema é que já não caibo no colo de um bom velhinho e sou grande demais pra espernear. 

Vai ver o senhor não fez por mal. Talvez essa história de mérito só funcione aí no Pólo Norte.

Pensando bem, aprendi a ter paciência. Sempre esperei doze meses pra ser acordada com um “olha o que deixaram embaixo da árvore pra você”. O que é meu tá guardado e um dia vem, não vem? Pode demorar 365 dias, alguns anos bissextos ou uma fartura de natais, mas vem. Vem embrulhado em papel bonito e com laço de fita chique, porque senão não vale, não é justo e vou sair da brincadeira.

Às vezes, penso como seria mais fácil se um vozinho de bochechas gordas me desse uma balinha macia e perguntasse o que quero ganhar, mas, sei lá, essa doçura de shopping não tem sabor de conquista. Ainda não entendo porque alguns conseguem trenó de ouro enquanto outros nem uma rena manca pra montar, mas gosto de pensar que todos têm seu lugar à neve, e mais dia, menos dia, a gente chega lá.

É por isso tudo que lhe escrevo depois de tantos anos, Papai Noel, pra agradecer. Porque, mesmo sendo de mentirinha, o senhor me ensinou um montão de coisas.

PS: Nunca ganhei a máquina de sorvete da Eliana nem a linha completa de brinquedos do Gugu, mas sabe de uma coisa? Não fez falta, não.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Los Perros de Cádiz

Un perro andaluz. Dois. Três, quatro, cinco. Aqui é impossível sair de casa e não contar ao menos dez cães levando os donos pra passear.



Uma das razões pra tanto vaivém canino é a arquitetura da cidade. No centro antigo quase não há casas térreas, e os prédios são grudados uns nos outros. Os apartamentos oferecem apenas diminutas sacadas como espaço recreativo, e há de passear muito mesmo pra não virar cachorro louco. E também pra fazer as necessidades, claro, origem do mau cheiro ocasional que torce os narizes mais franceses. Mesmo que os donos recolham as “lembrancinhas” e a prefeitura lave as ruas todas as noites, é recomendável caminhar dando olhadelas de vez em quando para o chão. 
  

Aqui o povo gosta mesmo de cachorro, todo mundo tem e cuida muito bem. Na volta das festas, não é raro ver gente caminhando com seu cão às quatro, cinco da matina. Inclusive sob chuva, não tem tempo ruim, não. Coisas meio impensáveis no Brasil. O Simba mesmo, coitado, fica esquecido lá na garagem de casa, semanas sem botar o focinho na rua. Deve ser por isso que tem o gênio tão ruim.


Apresento-lhes el perro de la ventana. Tá sempre ali, pegando um solzinho, com sua cara de poucos amigos. Se sua função é bibelô de janela ou segurança, não sei, mas desejá-lo bom dia no caminho da faculdade já virou pedaço da rotina.
 

Meus amigos estrangeiros riem do meu frequente espanto/entusiasmo ante um tipo de cachorro que nunca havia visto antes. E ante aos cães mais raros (e caros) em terras tropicais. Dálmata aqui é balaio, buldogue nem se fala. Até então, o cão-esfregão, esse aí de cima, foi o mais diferente que consegui fotografar.


Os cães já são parte da identidade de Cádiz, não consigo imaginá-la sem eles. Tornam meu dia mais leve e dão vida à pacatez da cidade. Alguns fazem verdadeira diferença na vida de seus donos. Ontem, na feira, ouvi uma senhora comentando que, depois que se aposentou, se sente triste e não tem vontade de sair de casa. Mas o faz ao menos três vezes por dia, graças a seu cão.

Por hoje é só, pessoal (tempos de crise, não tá fácil pra ninguém). ¡Hasta pronto!