| Armin e Meriem no nosso terraço |
Enquanto não chega o carnaval propriamente dito (a Mi e a Dani virão conhecê-lo :D) nem a próxima viagem, vou compartilhando um pouquinho das minhas impressões e do meu cotidiano.
Certos hábitos estrangeiros me causaram estranhamento logo no começo. Aqui é normal assoar o nariz na frente de todo mundo, na sala de aula, fazendo barulho. Também não tem nada demais passar desodorante no museu, assim, no meio da galera. Fiquei pensando, mas que contradição, sou parte de um povo com reputação de despudorado e tenho uns pudores bestas, de umas coisas tão humanas e naturais. Que coisa.
Moro bem pertinho da catedral, cartão postal de Cádiz, e divido apartamento com dois estrangeiros, Meriem e Armin. Meriem é francesa de Nice e uma coquete assumida, vaidosa, com incontáveis frascos de perfume e um notebook cor de rosa. Tenho aprendido muito sobre maquiagem e cosméticos com ela, que já trabalhou numa duty free. Nossa principal diferença é a questão do papel higiênico, que ela não consegue não jogar no vaso sanitário. Eu consegui parar de me irritar com isso, mas em caso de entupimento, quem paga o encanador é ela.
Austríaco, professor de alemão e testemunha de Jeová, Armin é meu melhor amigo. Não poderíamos ser mais diferentes um do outro, mas por alguma razão nos damos muito bem. Até hoje, só tivemos uma única rusga. Estávamos conversando sobre sei lá o quê e eu brinquei que “todos os alemães são loiros”. Ele, como historiador, geógrafo e germânico, não gostou da generalização e respondeu: “E todas as latinas têm cinco filhos, cada um de um pai diferente”.
Começamos uma longa discussão, ele alertando para eu ter cuidado com o que falo e eu explicando que só uma parcela mínima do que falo deveria ser levado a sério. O mais engraçado foi ele dizer, com a cara vermelha e a voz trêmula, que não, não estava nervoso. A situação foi tensa mas rendeu a anedota.
Armin nunca tinha dividido apartamento, muito menos morado só com meninas. Tive que explicá-lo que não se pode colocar objetos metálicos no microondas e que o catchup não pode ficar fora da geladeira . O coitado teve que se habituar a pendurar calcinhas no varal quando é sua vez de estender a roupa, e também lidar com nossos fios de cabelo serpenteando pela casa inteira. Ele achou um absurdo a quantidade de dinheiro que eu e Meriem gastamos na liquidação de inverno, mas pagou o dobro pra assistir um jogo do Real Madri sem peso na consciência.
Noves fora, temos uma convivência muito harmoniosa, rimos, cantamos e ouvimos música ruim juntos. Os dois são bem compreensivos com minha bagunça, que tem ímpetos imperialistas e às vezes conquista os outros cômodos da casa, por mais que eu tente mantê-la nas fronteiras do meu quarto.
No intercâmbio, o que não falta é aprendizado. Aos poucos, tô conseguindo gostar mais dos franceses, esses poços de simpatia, tentando me focar menos nas baforadas de cigarro e mais na oportunidade de aprender francês. Já não me importo com a imagem que se tem do Brasil, carnaval, samba, favela e blá blá blá, porque sei que tenho a mesma visão preconceituosa sobre outros países, por simples e natural ignorância. Às vezes é difícil se despir dos estereótipos quando a convivência só faz reforçá-los, mas por sorte tenho um amigo para me lembrar que generalizações são burras, e devagarzinho vou me livrando do cabresto etnocêntrico.
Beijos, povo, mais amor e menos preconceito!

