Eu ia escrever um texto com a pretensão de ser engraçado, sobre os contratempos das férias em família. Ia contar sobre a agência de viagem picareta que nos trouxe tanta dor de cabeça, logo no período em que procurávamos descanso. Ia falar da viagem pra Pernambuco de ônibus, que estava com a geladeira, ar condicionado e TV estragados. Ia reclamar das 42 horas sentada, suando, do lado de um banheiro fedido, com a boca seca, tomando o mínimo de água, para não ter que fazer uso do bendito sanitário. Você já teve o desprazer de fazer xixi num banheiro desses? As meninas, na posição aviãozinho, seguram a porta com uma das mãos, morrendo de medo que ela se abra, e com a outra, se apóiam no "corrimão" do banheiro. Ao mesmo tempo, tentam se equilibrar para não errar o alvo (o que obviamente, acontece, devido as sacolejos do ônibus, e acabam por molhar o chão e os pés) e para não encostar no vaso sanitário, e de quebra, ainda ficam de olho na janelinha, recebendo um monte de vento na cara, temendo que algum caminhão passe e que sejam flagradas naquele momento humilhante. Com os meninos deve ser semelhante, imagino. Na hora de sair, é uma sorte quando a porta não emperra, e você tem que ficar gritando lá de dentro (humilhação mode on) para alguém vir te resgatar. E o retorno para a poltrona, com um sorriso amarelo? Ok, chega de falar desses banheiros.
Bem, eu dizia que ia contar das 42 horas sentada, sendo de tempo em tempo incomodada pelo pé da senhora que sentava atrás de mim: "Olha minha filha, como tá inchado", dizia ela, colocando-o em cima do meu banco. Para dormir, eu me remexia, mudava, trocava de lado, rezava, tomava um dramin, olhava as estrelas, e quando finalmente achava uma posição confortável, e começava a pegar no sono... o ônibus parava. Lá vinha o herege do guia, que abria a porta da cabine e gritava: "Janta! Quarenta minutos!" Dá-lhe gente correndo para se aliviar, as mulheres com um rolo de papel higiênico na mão, e o banheiro, nem preciso dizer, era pior que o do ônibus.
Graças à invejável infraestrutura e higiene dos restaurantes baianos, almoçava ruffles com coca e jantava fandangos com guaraná, arriscava um picolé de vez em quando, morrendo de medo de algum possível revertério intestinal. De volta pro ônibus, tinha que aguentar a briga dos meus irmãos, discutindo para ver quem ia se sentar nos lugares da frente, que eram melhores.
E o banho? Três reais compram uma ficha, que dá direito a oito minutos de água fria. O problema é que você gasta dois só para tirar as calças sem que elas se molhem no chão, mais dois para achar algum lugar para por o sabonete, rezando para que ele não caia, e mais dois para por a roupa limpa em local seguro, livre de respingos.
Depois de muito martírio, ouço os gritos das crianças, alguns "Graças a Deus", e vejo que chegamos a Porto de Galinhas. Epa, motora, é aqui! Ixa, passou. Como assim não vamos ficar em Porto? Não, ficamos em Maracaípe, 30 minutos à pé das praias boas, da vida noturna, das lojas e restarantes. Great.
Enfim, era isso que ia falar. Cheguei em casa, depois da exaustiva viagem de volta, liguei a televisão e retornei a realidade, ao mundo, do qual fiquei afastada nesses dias pernambucanos. Terremoto no Haiti? Tô bege. Assisti com horror e profunda compaixão ao noticiário, que falava do número de mortos, das tentativas de ajuda, do desespero dos sobreviventes, da dor das famílias. Depois do espanto, veio a vergonha. Eu ia reclamar do fedor do banheiro do ônibus, mas vi imagens das pessoas passando nas ruas de Porto Príncipe com os rostos tampados, para não sentirem o cheiro dos cadáveres em decomposição espalhados por todos os lugares. Eu ia reclamar da comida duvidosa da Bahia, mas vi imagens de dezenas de pessoas se atacando, lutando por uma caixa de mantimentos, cenas animalescas. Ia reclamar da boca seca, para não usar o banheiro, mas vi que lá eles não tem água potável para beber. O ser humano reduzido ao instinto, ao irracional. Lembrei-me de "ensaio sobre a cegueira", do Saramago. Que vergonha senti.
Eu tive a oportunidade de ir para um paraíso natural, passei alguns dias com minha família, da qual fico longe a maior parte do ano, dancei forró pernambucano, fiz compras, passeios... e ia reclamar, enquanto muitos perderam as vidas, outros perderam os familiares, muitos mais não tem o que comer nem beber...
Enfim, aprendi uma lição que eu já sabia. Devemos agradecer, sempre, por tudo, inclusive as coisas ruins. Seja grato, agradeça a Deus, se você acredita nele, se não, agradeça aos seus pais, eles são o que você tem de mais precioso. Ou agradeça à sua sorte, ao seu poder aquisitivo, ao seu anjo de guarda, à pomba-gira, ao chupa-cabra, mas enfim, agradeça. Você que leu esse texto, tem mil e um motivos para agradecer.
Sunday, January 17, 2010
Wednesday, December 30, 2009
Entrevistado da vez: Papai Noel

Feliz Natal gente! Ok, estou atrasada, mas o que vale é a intenção. Aí vai uma entrevistinha que fiz com o papai noel do Iguatemi! Um querido, vocês precisavam de ver! Tudo de bom e feliz ano novo também!
Lá estava ele, pomposamente sentado no centro do primeiro andar do shopping Iguatemi, em Florianópolis. Barba branca, óculos, nariz de batatinha, carinha bondosa, roupa vermelha. O cenário estava quase impecável, a não ser pelas chaves do carro de Abner Joseph, que repousavam numa caixa de presente, ao lado de sua cadeira. O senhor de 61 anos e origem norte-americana interpreta o papai noel desde 1992, quando um membro de sua igreja o convidou para distribuir presentes em um hospital. Desde então, todo mês de maio marca o início da transformação: é quando ele deixa a barba crescer, para que em dezembro ela esteja do tamanho ideal. Esse detalhe surpreende algumas crianças mais céticas, que puxam sua barba numa tentativa de desmascará-lo.
Seu trabalho pode parecer tedioso, mas muitas vezes é bastante emocionante: "Tem criança que vem aqui pedir pro papai noel fazer o papai papar de beber, parar de bater na mamãe, ou então pra vovó sair do hospital... é comovente", conta Joseph, sem deixar de comentar que notebooks e roupas são bem requisitados. Nos finais de semana, cerca de mil crianças visitam o bom velhinho. São gastos quatro pacotes de bala por dia, além de muita paciência da equipe natalina: uma fotógrafa e duas assistentes do papai noel, as "noeletes".
"Eu encaro isso como uma missão, e me satisfaz imensamente quando consigo transportar uma criança para um momento de felicidade", diz Joseph. Missão ou não, o trabalho é bem pago, segundo uma das noeletes: "Nós (assistentes) ganhamos 1.200 reais por esse período de um mês, e sabemos que ele ganha muito mais...", entrega a moça.
Sunday, December 13, 2009
A Barragem
Aqui vai mais uma produção audiovisual de Luisa Nucada! Ok, não só minha, mas de mais seis pessoas. Esse curta é uma animação em stop motion, produto da disciplina "oficina de vídeo história". Foi um trabalho que levou dois semestres para ser realizado, composto por elaboração de um roteiro, confecção de bonecos e cenários, gravação das imagens e edição. O objetivo da animação é oferecer a alunos de quinto a oitavo anos uma forma alternativa de aprender história, e provavelmente será exibida em colégios públicos de Florianópolis. Assistam, gente, deu muito trabalho para fazer, custou um pedacinho das minhas férias e exigiu muita paciência (editei sozinha, sim senhor)! Ah, a história é triste, mas o que importa é que ela mostra um pouco dos impactos sociais que a construção de hidrelétricas pode provocar nas comunidades locais. Beijinhos!
Wednesday, December 2, 2009
era só de mentirinha
Olha só, aconteceu mais uma vez. Previsível, não? Ela sabia, todos sabiam, mas a empolgação e o entusiasmo foram maiores que seu juízo. Aquele papo velho, emoção maior que a razão. Não adiantou alertar, pedir cautela, dizer para ela ir com calma. Ela se jogou. E conscientemente. Pros amigos que avisaram, ela mostrou a língua e cantou aquela do Lulu Santos: “Se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer... o que eu ganho e o que eu perco, ninguém precisa saber...”.
É claro, se jogou e caiu de cara no chão. E agora, fazer o quê? Continuar, e não sentir o prazer da reciprocidade? Submeter-se ao superficial em troca de um pouquinho de afeto, um abraço gostoso, um olhar terno, meia-dúzia de elogios baratos, mentirinhas no ouvido? Não...
E o medo? O que vai ser agora? Vai ficar sozinha? Sozinha no meio de uma multidão? Foi aí que se lembrou... Já havia visto esse filme antes... Não era a primeira vez. Recordou-se de que o final é sempre igual: dois dias de mini-fossa, até que alguém rouba sua atenção... e começa tudo de novo. Ou não.
A decisão, apesar de envolver várias variáveis, foi tomada em curto espaço de tempo. De mão dada com ele ou de mão dada com o mundo? Não, não queria mais a angústia de viver na insegurança, na ansiedade, na dúvida, em troca de poucos momentos de carinho. Momentos de faz-de-conta. A carência era grande, mas o orgulho também. Preferiu a tranqüilidade da solidão inofensiva de viver entre mil bocas e cheiros. Melhor assim. Sem dor, sem desgaste, sem ciúme, sem esperança vã.
“Tá, mas vem cá, me beija. Quero um último abraço, mais um olhar terno, elogia de novo, vai... Assim, bem gostoso. Vamos amar de mentirinha de novo?”
E a partir desse dia, ela foi feliz para todo o sempre.
Wednesday, November 25, 2009
da janela do meu quarto
A professora mais louca do mundo (Aglair ataca novamente) passou um trabalho final não muito convencional: podíamos fazer qualquer coisa, desde uma performance até uma instalação, de acordo com os temas dados, que também não eram dos mais convencionais. O meu foi "da janela do meu quarto", mas rolou tabém "natureza morta 37", "25 formas de descascar uma laranja", "vertigem", entre outras excentricidades. A proposta era fugir da obviedade, no que eu tive, sem modéstia nenhuma, absoluto sucesso: fiz um vídeo com imagens do que as pessoas escrevem nas portas dos banheiros. Inventei uma relação com o tema, do tipo: os olhos são a janela da alma, e "quarto" pode ser entendido como algo que faz parte do cotidiano, assim como os banheiros. HAHA. Também peguei imagens de paredes e murais. Botei de fundo uma música dos tribalistas que eu adoro, e no meio coloquei um poema que vi grudado em cima de um orelhão. O resultado ficou "bárbaro" :)
A voz que narra o poema é do Áureo, coordenador do curso de jornalismo. Pensa, eu pedindo pra ele gravar essa pornografia, e explicando que o poema não era meu... Tudo pela arte!
A voz que narra o poema é do Áureo, coordenador do curso de jornalismo. Pensa, eu pedindo pra ele gravar essa pornografia, e explicando que o poema não era meu... Tudo pela arte!
Thursday, November 5, 2009
Longe, mas bem perto

Se aqueles dois anos foram legais, uma boa parcela da culpa foi dele. Sempre sentado no fundão, quase sempre com uma marca vermelha e redonda na testa, pois apoiava a cabeça na carteira para dormir durante as aulas. Demorei pra perceber que seus olhos eram apertadinhos assim mesmo, não era por causa do sono, não.
Eu era, aliás, sempre fui aquela menina meio macho que senta no fundo da sala junto com os meninos, para poder falar besteira com eles. E o melhor é que ele nunca pareceu se importar com esse meu jeito desbocado, espontâneo, de quem não tá nem aí pro que os outros vão pensar. Acho que ele me aceitava, não me julgava, talvez até gostasse. Daquela época, ele é o único de quem realmente sinto falta. Não aquela falta que dói, aquela saudade que fere, que te faz pensar o dia todo. É uma certeza de que aqueles dias foram bons, vontade de viver de novo.
Ele tinha uma queda por duas meninas. Se eu fosse homem, nunca me interessaria por elas. Uma tinha uma cicatriz na sobrancelha que me irritava, e a outra estava sempre com os cotovelos acinzentados. Ambas usavam aparelho nos dentes e pareciam ter a personalidade aguada. Que importa. Meu gosto, naqueles dois anos, não mostrou ser dos mais requintados.
Me lembro do dia em que ele vomitou no próprio fichário. E do dia em que fizemos uma coisa bastante reprovável pelo telefone (e nem ficamos com vergonha na manhã seguinte). E de quando ele foi pro Paraguai e trouxe uma daquelas canetas que dá choque, e testou no professor, que a quebrou jogando-a no chão. E das discussões infindáveis sobre drogas. E dos segredos que todo mundo sabia. E de que ele foi o único que se interessou pela herbalife e pela seicho-no-ie.
Pensa em alguém que se parece com o pokémon snorlax. Pensa em alguém engraçado. Sabe aquela pessoa que tem sacadas ótimas, e só abre a boca no momento certo, pra falar algo genial? Sempre que fazia isso, eu pensava: ele não existe. E era delicioso conversar com ele, tomar açaí com ele, comer bombom da menina do bombom com ele, falar da vida dos outros com ele, falar da minha vida pra ele. Ele não falava muito da dele, mas tenho a impressão de que algumas coisas ele só falava pra mim.
Me dá vontade de ter controle de tudo, de ser uma espécie de deus para poder mexer os pauzinhos e fazer tudo dar certo pra ele, fazer com que ele tenha sucesso e seja muito, muito feliz. Ontem descobri que meu processo da auto-escola vai vencer em um mês, não vou conseguir tirar minha carteira, vou ter que gastar uma grana e fazer tudo de novo. Também descobri que vou ter que sair do apê onde moro, portanto só tenho um teto até o fim do semestre. É nesses dias que a gente se lembra de quem nos importa.
Tuesday, October 27, 2009
Meu primeiro flagra jornalístico
Aí vai uma materinha sobre acessibilidade para cadeirantes que fiz para o programa Cotidiano da TV UFSC. Estava filmando placas de estacionamento reservado para deficientes físicos, quando flagrei uma mulher, em perfeitas condições físicas, saindo de uma dessas vagas... Fui abordar a tia e ela ficou puuuta, pediu meu nome, cpf, tipo sanguíneo, disse que ia me processar... Reparem que eu estava tão nervosa com a situação, e tão preocupada com o enquadramento da câmera, que esqueci de diluir meu incomparável sotaque goiano! Depois de bastante discussão, o flagra foi cortado da matéria, para evitar maiores confusões. Mas aqui no anucadadisse não tem censura, não! Agradecimentos a Paquito e Nathan, que aparecem no vídeo, e a Iana, que me ajudou a fazer a matéria. Confiram!
Erratinha: Um certo Fritz me falou que "Morangos Silvestres" não é um filme alemão, e sim sueco. Vai mais, Nucada, aprende a jogar no google antes de postar...
Erratinha: Um certo Fritz me falou que "Morangos Silvestres" não é um filme alemão, e sim sueco. Vai mais, Nucada, aprende a jogar no google antes de postar...
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