quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Chicos

Primeiro texto do ano para o Descomplicadas, da Revista Naipe.


O primeiro foi o Chico Mineiro, o do Tonico e Tinoco, cuja morte minha avó cantava no coral da terceira idade. “A festa estava tão boa / Mas antes não tivesse ido / O Chico foi baleado / Por um homem desconhecido”. A netinha, comovida, não queria que a música acabasse nunca, pro Chico Mineiro não morrer, mas o coro de vozes velhas sempre o matava no final.  Depois, veio o Chico Anysio, dando razão de rir às minhas tardes vadias com a Escolinha do Professor Raimundo. Sua canção também parece estar chegando ao fim. Vai ver as coisas andam meio chatas lá em cima, e querem convocar seus duzentos e tantos personagens pra dar uma animada no céu.

Mais tarde, fui me inteirando de outros Chicos. O Xavier, que devia ser alguém importante, pois suas frases sabidas enfeitavam os intervalos do SBT; O Buarque, esse maldito, quanto mais velho, mais bonito, não sei se é a poesia ou o par de olhos verdes; E o Sá, que de tão arretado é Chico com X e não com Ch.  Sei não, tô achando que todo Chico tem talento pra botar palavra junto.

Em espanhol, chico é menino, rapaz, moço, carinha. No mercadinho da esquina, aprendi que também pode ser referência de tamanho, quando quis saber o preço do suco e o atendente perguntou: “Cuál, el grande o el chico?”. E daí surge achicanar, que é minguar, encolher, apequenar, não é uma graça esse verbo?

Antigamente, se dizia que todo mês a mulherada esperava o Chico. Estar de chico é estar no vermelho, em obras, menstruada. Esse Chico é macho-alfa e egoísta, quando vem, não quer saber de outro chico rondando por ali. São os dias do “hoje não rola”, mas dá pra relevar se a frescura for menor que a vontade de namorar. A visita do Chico é uma chatice e um alívio, garantia de que na barriga não tem nenhum mini chico.

E então teve este Chico, chefe meu em um ex-estágio. Dono de um pavio curto, uma língua grande e um coração maior ainda, elaborava frases de discurso político em menos de um segundo, e ia do amor ao ódio na mesma velocidade. Chico era o mestre da metáfora. Na minha entrevista de estágio, explicou que a função daquela assessoria de comunicação era “pintar com as cores de Santa Catarina o que está em verde e amarelo”. Soltei um ingênuo “nossa, que bonito” nada adequado pra ocasião, mas desconfio que foi por isso mesmo que ele me contratou.

O temperamento faiscante lhe rendeu o apelido de coronel. Bambeava minhas pernas com broncas homéricas e depois, ferido de remorso, pedia perdão. Sem saber como me portar, me achicanava na cadeira de estagiária, só concordava com a cabeça e ensaiava um olhar de quem estava entendendo tudo. Com o passar do tempo, ele concluiu que eu tinha uma “quietude inquieta” e sabia “o valor do silêncio”. Mas às vezes me falhavam os dotes de atriz. Certa ocasião, Chico me enrubesceu inteira ao sentenciar: “A Nucada tá apaixonada. Quando entrou aqui não tava, mas agora ela tá”.

Chamar-se Chico é quase atestado de personalidade forte. Nem todo Chico é Francisco e nem todo Francisco é Chico, só os merecedores do apelido. Os Chicos são assim, mineiros, cearenses ou castelhanos, chegam como quem não quer nada, com esse nome humilde na frente e muita singularidade atrás, e bum! Marcam a gente.

 E você, quais sãos os Chicos da sua vida?


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